terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O amanhecer de Tia Neiva (parte 1)

Sabado 10 de Agosto de 1985
O psiquiatra estava sentando no rústico consultório do hospital de madeira construído junto ao acampamento do I.A.P. I. O único que existia nestas plagas onde Brasília estava nascendo, de um parto acelerado, das mãos dos operários e da poeira vermelha.

O sonho de alvorada centro-oestina havia enlouquecido alguns sertanejos. Eram casos raros no meio de tanta esperança. Daí a presença de um psiquiatra. Talvez a bela morena, uma quase cigana de pele trigueira e olhos profundos fosse mais um caso de delírio. de fácil diagnóstico.

Afinal de contas no final dos anos cinqüenta a mulher que assumira uma profissão pioneira em todo o Brasil: a de caminhoneira que cortava as estradas do País no seu “Internacional”, com isso já mostrava que as coisas não andavam bem pelo lado de sua cabeça e de seu coração.

É realmente  não andavam. Neiva Zelaya, a viúva caminhoneira, abriu o jogo para o psiquiatra:
Acho que estou com estafa, tendo alucinações, vendo espíritos e o pior é que estou ouvindo tudo”.

Quando o médico que atendia Neiva a pedido de Bernardo Sayão, com quem o marido dela havia trabalhado, tentava lhe
explicar que se tratava de um caso típico de pessoa que está trabalhando demais.

Neiva viu alguém surgir atrás de um biombo e iniciar um diálogo com ela. O médico prestou atenção no diálogo, que girou em torno de assuntos que ele conhecia muito bem. Coisas familiares.

Tratava-se de seu pai. Só que ele havia falecido há algum tempo.

Foi a partir deste momento que a motorista profissional se transformou na clarividente “Tia Neiva”, já conhecida pelos quatro cantos do mundo, e o médico tomou uma  decisão inesperada.

Depois de ficar lívido de espanto, apanhou seus objetos, fechou o consultório, deixou Brasília e nunca mais se ouviu falar nele.

- Para quem nasceu de uma família religiosa, nordestina, com padres e freiras, o começo deste trabalho espiritual
deve ter sido muito dificil. Não foi, Tia Neiva?

Tia Neiva - Foi sim. Eles não gostavam de “macumbeiros” e nem de mulheres independentes.
Só pela minha ousadia de ser uma viúva que queria viver sua própria vida já haviam me expulsado de casa uma vez.


- Que dizer que antes de todo este trabalho espiritual, a decisão de ser caminhoneira, principalmente em se tratando
de uma viúva jovem e bonita, custou muito caro para a senhora?

- Tia Neiva - Custou, mas valeu a pena. Eu sabia, eu sentia que tinha proteção de Deus.
Eu sempre me considerei uma boa motorista.
Dirigi por várias estradas deste Brasil.

Naquela época, os carros não tinham a mecânica de hoje e nem as estradas eram pavimentadas, a não ser umas poucas, nos troncos principais. Por isto, eu era respeitada pelos meus colegas. Justamente por ser considerada boa motorista e boa companheira.

- Dá para falar um pouco de sua atuação como motorista, na época em que Brasília estava sendo construída?

- Tia Neiva - Meu carro, um internacional,  estava fichado na Novacap e as tarefas eram sempre variadas. Mas sempre elas começavam cedo e não era raro eu estar na rua às 5 ou 6 horas da manhã, com a carroceria cheia de candangos para serem levados para os canteiros.

Trabalhávamos muito e, naquela época, a gente tinha que dirigir devagar. O movimento do Núcleo Bandeirante era intenso, as ruas muito cheias de buracos e o povo muito descuidado. Tenho recordações cheias de amor daqueles tempos pioneiros.

- Os pioneiros que a conheceram naquela época ainda lembram de muitas histórias que contavam a seu respeito.
Entre outras coisas, a de que a senhora tinha contatos com espíritos, enquanto dirigia seu caminhão. Dá para falar sobre  isto?

- Tia Neiva - Na realidade eu já estava recebendo mensagens e mantendo contato há algum tempo. Coisas que me deixavam, ainda por falta de maiores esclarecimentos, muito perturbada.

Um dia, dirigindo perto da construção do Brasília Pálace Hotel, fui sacudida violentamente pelo meu filho, a única pessoa
que estava comigo na cabine do caminhão.

Ele achou que eu estava delirando, já que mantinha diálogo com uma pessoa invisível.

Esta pessoa me mandava, com maior urgência, para casa, onde uma mulher necessitava do meu socorro. Eu tentava argumentar e relutava em não ir. Mas fui, e tudo aquilo que o ser invisível para meu filho me falou, realmente aconteceu. Isto foi o inicio de uma série de fatos deste tipo.


- E a história de que a senhora previu o acidente de um ônibus na Cidade Livre e de que salvou a vida de duas pessoas é verdade?

- Tia Neiva - É, e realmente se trata de uma das coisas mais fantásticas que aconteceram comigo.

 Um dia, depois de pensar que tinha passsado com meu carro em cima duas pessoas; que na realidade eram dois espíritos,  fui a um posto de abastecimento que ficava junto a um restaurante de um casal de japoneses, meus amigos e velhos conhecidos.

Pedi ao lavador do posto para dar uma lavada no rápida na carroceria e no chassis, enquanto bebia um café, fumava um cigarro, recostada no batente da porta do bar.

Do outro lado da rua observei um homem que trazia na cabeça uma espécie de televisão. Era um pequeno aparelho, por onde comecei a ver o futuro imediato.

Entre outras coisas, vi uma moça se aproximando o que realmente aconteceu após, e um grande acidente de ônibus, onde aconteceriam algumas mortes.

Quando vi o ônibus na minha visão aparecer, saí correndo, me peguei no braço do desconhecido, sob os protestos da moça, que um tanto ciumenta tentava me empurrar. Implorava para que ele não subisse no ônibus e, no meio de toda esta confusão, ele realmente nãos eguiu viagem.

Em poucos minutos, aconteceu um grande estrondo como se fosse uma grande explosão. No bar, todos ficaram silenciosos.

Distante um quilômetro de onde nos achavámos, numa curva acentuada, aconteceu o terrível acidente com o ônibus, cujo trágico saldo foi de 4 mortos e vários feridos.

- Não era dificil viver assim, tão no meio de dois mundos?

- Tia Neiva - Foi neste tempo que comecei a viver no meio de uma multidão silenciosa que me assistia e de outra barulhenta que me exigia respostas. A primeira invisível, estava sempre me influenciando, ajudando na aproximação de mundos inesperados, e só Deus sabia o que chegava ao meu misterioso mundo interior.

- Desta maneira é que foi chegando a sua evolução. Foi assim, aos poucos, que a senhora inicia sua missão?

- Tia Neiva - Mãe Yara, uma das minhas mentoras, ja havia entrado em contato comigo para me dizer que sem luta não há evolução.

Ai eu pedi para que ela me ajudasse, me iluminasse, para que eu fosse exatamente aquilo que Deus queria. E os meus tristes hábitos, o que fazer com eles?

Foi então que não era preciso repudiar estes hábitos, já que o belo é o resplendor do verdadeiro. Ela me dizia: Não saia de você mesma, seja natural, ame o que sempre amou e recuse o que sempre recusou. A única diferença, Neiva, é aprender e tolerar os seus amigos, até que você se faça acreditada. Este será o período mais difícil de sua missão, porém, só Deus conhece Deus.

- A a senhora realmente se tornou uma pessoa acreditada. É só ver o Vale do Amanhecer nestes anos todos. Ou seja
em 16 anos, tão poderoso, tantas crianças abandonadas e tantos médiuns.
Como funciona isso aqui?

- Tia Neiva - Aqui moram em torno de 3.500 pessoas. O Vale do Amanhecer, esta comunidade religiosa que é visitada por pessoas de todas as partes do mundo, já tem mais de 50 mil médiuns. No Brasil inteiro, os médiuns seguidores da Doutrina do Vale do Amanhecer já somam o número de 100 mil.

Atualmente temos 42 templos espalhados pelo Brasil, todos funcionando sob a coordenação dos Templo do Vale, que é dirigida pelo meu filho Beto Zelaya. Temos muitas crianças abandonadas vivendo em nossa comunidade.

Algumas são encaminhadas pelos juizado de menores. Todas criamos com muito amor e elas são, na verdade, a razão de nossa grande alegria.
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