terça-feira, 15 de novembro de 2011

Minha Vida Meus Amores

Dentro de mim começou um terrível conflito. Sai com ele e fui até Alexânia que ficava a uns 14 quilômetros dali. A minha cabeça era agora um vulcão e me sentia realmente irresponsável. Conflitos, conflitos era tudo que tinha na minha mente. “Eu compro um caminhão e ponho na sua mão e você vai pagando; você é a única mulher profissional. Você mascateando?” Ele me ridicularizou ao máximo e despediu-se dizendo com água nos olhos: “Me corta o coração, nunca mais porei os pés aqui, não quero vê-la nesta miséria, neste fanatismo. Pense em seus filhos Neiva!” Sentados na estrada ele se despediu e se foi, dizendo que confiava no meu retorno à estrada e juntos daríamos uma festa. Ouvi uma voz dizer: “Vai fia!” Continuei sentada ainda na estrada e tapei os ouvidos para não ouvir o barulho do motor do caminhão. “Vai fia”, disse Vovô Indú na minha audição. Pensei, como sou querida! Os espíritos preferem que eu desista a me verem infeliz. Meu colega saiu tão amargurado. Quando me levantei, já vinham atrás de mim e começaram os sermões. “Neiva, nesta missão em que nós confiamos a você, não podemos ter um gesto irregular, é feio para nós”. Porém, a minha dor agora era tão grande que eu mal ouvia aquelas palavras. Resolvi então continuar a minha farsa de companheira de Getúlio. Assim pude manter um pouco o respeito, sem causar tanto ciúme. Sim, meu filho, no campo da vida cada inteligência se caracteriza pelas atribuições que lhes são próprias. Senti, pois que a estrada é longa e que se processa, a cada passo, lentamente pelo chão. “Sede, pois, vós outros perfeitos, como perfeito é o vosso Pai Celestial” (Mateus 5:48) Daquele dia então, transformei a minha vida, e a fiz um facho de luz e amor, sentindo que as minhas dúvidas eram imortais. Preenchi todas as necessidades, fazendo das minhas ilusões um clarão de alegria a todos os meus desejos. Aos poucos fui me realizando com as curas constantes; fui superando as minhas frustrações, me colocando e passando a viver sob um céu espiritual de uma outra natureza, da qual dia a dia ia me conscientizando na minha clarividência.
Dois anos se passaram, estávamos agora em princípio de 1960, quando recebi de Pai Seta Branca a primeira missão. Eram seis horas da tarde e eu, mais do que nunca, sentia uma grande saudade, porém desta vez era algo mais fino, alguma coisa que eu não conhecia. Sentei-me na ponta do morro, embaixo do meu pequizeiro, quando Pai Seta Branca começou a fazer o meu roteiro e a mostrar tudo por onde eu passaria e a minha missão. Traçou então o meu sacerdócio ao lado de Umahan. Senti uma forte dor de cabeça e uma sensação de mal estar, e só me dei conta quando estava diante de um velho cor de cuia, barbas longas vestido com uma balandrau que me disse: “Salve Deus! De hoje em diante terás a força de uma raiz”. Foi difícil. A partir daí, mais ou menos às quatro horas da tarde começava o meu trabalho. Então me sentia como se estivesse com 38 graus de febre, minha cabeça rodava até o ponto de não me agüentar de pé. Deitada, as tonteiras se acentuavam e eu entrava numa espécie de sonho, um sonho em que me desprendia do corpo com perfeita consciência. Cada dia eu melhorava o meu padrão vibratório, consciente do meu trabalho. Então recebi de Pai Seta Branca novas instruções: para entrar num plano iniciático teria eu que fazer as pazes com todos aqueles que se dissessem meus inimigos. Então, já no terceiro ano de conhecimento ao lado de Umahan, segui até as cavernas a pedir paz e amor aos reis dos submundos. E assim o fiz. Me transportava e humildemente lhes pedia acordo, pois a nossa Lei não admite demanda. Fui à presença de sete reis, que me tratavam com mais ou menos ferocidade, porém eu reagia com amor e muita timidez. No caso do “Sete Montanhas” recebi até uma grande proposta. Ele quis me comprar de Pai Seta Branca e eu prometi falar com ele. Fazia as minhas recomendações e prosseguia, apesar do meu tremendo pavor. Nesse período eu vivia sobressaltada. Num desses dias que o sol não aparecia, ocasiões essas em que nossos pensamentos ficam mais tristes. Eu tinha muita coisa para fazer, porém me sentia um pouco sem forças. Recostei no meu pequizeiro e adormeci, me transportando. Entrei num suntuoso castelo. Tudo era riqueza e não me foi difícil saber que estava diante do trono do poderoso, o Exu Sete Flechas.

É inofensiva, tragam-na até aqui”


UESB-Serra do Ouro-1960

Dois grandes homens com pequenos chifres me seguravam pelos braços num gesto deprimente, enquanto o rei vociferava: “É inofensiva, tragam-na até aqui. Já tenho conhecimento dos seus contatos e virando-se para mim continuou dizendo: sua pretensão é muito grande em querer acordo, quando não tem nem mesmo um povo para a defender”. Respondi: Vou levantar um poder inicático e quero fazê-lo após vossa licença neste acordo, para que o seu “povo” não penetre na minha área. “Já sei muito bem, disse ele, das suas intenções. Eu me comprometo de não penetrar em sua área, antes, porém vou fazer um teste com você para lhe fazer sentir a minha força”. Eu disse apenas: Salve Deus! “Quero ver se você tem proteção, se ela a livrará de mim. Amanhã às três horas da tarde, vou arrancar todo o telhado de sua casa. Quero ver sua força!” Voltei para o corpo sentindo o sabor desagradável daquela viagem. Tornei a voltar onde ele estava, porém em outro local, em outro salão e desta vez tudo foi pior. Ele jurou na verdade que não tocaria nos meus filhos Doutrinadores, porém só se realizaria quando medisse sua força comigo. Sustentei sua ameaça três anos, até que um dia, eu já estava em Taguatinga, senti que as coisas estavam ficando perigosas. Fui pela terceira vez falar com ele e qual não foi o meu sofrimento: sua ameaça estava de pé! No meio de risos e deboches ele me disse que às três horas da tarde arrancaria o telhado de minha casa. Pensei em não ter medo, se ele até hoje não arrancou, não arrancaria mais. Qual não foi a minha surpresa: uma velha, dessas que vivem para melhor fazer suas cobrancinhas, mais ou menos às duas horas da tarde, começou uma das suas. “Ô irmã Neiva, como vai? Eu precisava tanto falar com você, mas dizem que você não fala com os pobres”. Eu fiquei possessa com a velha, baixei a vibração, e então só ouvi o urro do telhado, foi tudo para os ares! Só Deus sabe como fiquei humilhada. Pensei; Neiva você fracassou apesar de todas as instruções que recebeu.
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