sábado, 29 de outubro de 2011

Minha Vida Meus Amores - Fim do 1º. Capítulo



Mas logo ele saiu de seu impacto, mandou-me sentar em frente da mesa, pegou a caneta e uma ficha e fez as perguntas de praxe: nome, idade, ocupação, estado civil, etc. que eu respondi com certa impaciência. Ele terminou a ficha, largou a caneta, colocou as mãos sobre a mesa, olhou-me no rosto e perguntou gentilmente. “Então, em que posso serví-la? O que a senhora esta sentindo?” Sabe doutor, eu não estou me sentindo muito bem. Acho que estou com estafa, estou tendo alucinações, estou vendo espíritos e o pior é que estou ouvindo tudo. Ouvindo isso ele começou a abanar a cabeça como se tivesse chegado a um pronto diagnóstico e foi logo dizendo: “È, está me parecendo que a senhora está mesmo estafada. Tem trabalhado muito? No que a senhora trabalha?” Quando eu lhe disse com uma ponta de orgulho, que era motorista profissional, pois quando eu respondera as perguntas da ficha eu dissera apenas, “motorista”, ele me olhou com mais atenção e continuou com seu monólogo partenal. Nisto senti um calafrio percorrer minha espinha e vi um vulto saindo de trás do biombo. Quase saltei da cadeira, pois pensei que alguém estivera o tempo todo me espionando. O médico deve ter notado minha repentina agitação, pois parou de falar e me olhou com um ar de interrogação. O vulto foi se aproximando e, embora eu continuasse a olhar fixamente para as mãos do médico sobre a mesa eu continuava a ver perfeitamente a figura que se aproximava, notava suas feições macilentas e seu andar arrastado.

Comecei a sentir medo e com a mão direita e o polegar comecei a mostrar para o médico. Ele acompanhou o meu gesto e olhou na direção do vulto. Fez um movimento com as duas mãos, como quem nada estava vendo e reassumiu seu monólogo. Nisso o espírito parou e, com voz pastosa falou: “Boa noite, boa noite.” Meu gesto se tornou mais agitado e eu comecei a apontar nervosamente para o espírito enquanto ele começou a mostrar certa perplexidade. Enquanto isso acontecia minha mente entrou quase em colapso tal a confusão em que me achava. Eu estava realmente vendo o espírito ou era uma alucinação? Tentando racionalizar as coisas eu esqueci até mesmo de minha conversa com Mãe Yara e comecei a explicar ao psiquiatra que eu era de origem católica, que tinha duas tias que eram freiras e um primo que era padre, que já havia procurado o pároco do Núcleo e que ele mandara como penitência que eu puxasse uma carrada de tijolos para a igrejinha que ele estava construindo. O vulto estava quase junto de nós, e eu já estava me preparando para levantar da cadeira quando o “mortinho” falou: “Diga a ele, e apontava para o médico, diga a ele que sou o Juca, seu pai, eu sei que você está me vendo mas ele não me vê, diga a ele que sou Juca, seu pai, eu morri há dois meses lá no Rio, eu vim ver como ele está. Nós éramos muito ligados, agora eu morri, morri.” E sua voz foi se tornando mais pastosa, mais sortuda. Aí então eu não resisti mais e também não tive mais dúvida. Doutor, Doutor o homem, o espírito, o defunto, ele diz que é seu pai.” O doutor olhou-me apreensivo. “ Meu pai”. Sim, seu pai, ele diz que se chama Juca, e que morreu há dois meses no Rio.*

Nem bem acabara de falar quando o médico se levantou, lívido, com as feições transtornadas, os olhos quase fora das órbitas clamando com voz rouca: “ Meu Pai, meu pai, oh! Meu Deus!, meu pai, onde?, a senhora está vendo ele, como é que ele esta?. Não sei se foi aquela cena patética ou se foi o fato de que eu chegara com esperanças de meu caso ser de simples psiquiatria e poder ser resolvido com remédios mas, a verdade é que naquele instante, vendo o espírito de um defunto (que não parava de falar e acenar em direção ao médico), vendo um cientista alucinado com a simples menção de um mortinho, eu entrei em pânico, colapso nervoso, nem sei o que. O fato é que me levantei com violência e tentei sair por onde entrara. Não sei se a fechadura ou trinco emperrou, mas o fato é que eu sentei o pé na porta com tal violência que a porta abriu ao contrário e ficou dependurada nas dobradiças caídas. Com a mesma violência entrei no meu internacional e não respeitei nem seu “queixo seco”, engrenei vigorosamente e sai sem saber bem o que estava fazendo. Chegando em casa chorei, chorei muito.


Diga a ele, e apontava o médico, diga a ele que sou Juca, seu pai, eu sei que você está me vendo, mas ele não me vê, diga a ele que sou Juca, seu pai, eu morri há dois meses lá no Rio..
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