sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Minha Vida Meus Amores - Tia Neiva


Num certo sentido essas adversidades foram muito boas para mim. Muito cedo eu desisti de querer ser entendida pelos homens e me voltei para os amigos espirituais. Mas a própria missão exigia e eu tinha que me subordinar aos amigos encarnados circunstantes, o que, aliás, me ensinou as principais lições. “Parece Tia, que através do que a senhora está me dizendo a gente pode entender um pouco do que acontece hoje com Médium principiante” Pois é, meu filho, eu estava na maior confusão quando mãe Neném apareceu. Ela era uma senhora, tipo da matrona, daquelas que inspiravam confiança, pela autoridade que exercia. O único problema era sua formação cardecista que não aceitava Pretos Velhos nem Umbanda. Isso me trouxe maior insegurança. Sua primeira medida foi convocar um médium muito conceituado o qual chegou com muita autoridade, na condição de árbitro. Seu nome era Cisenando e tão logo ele se familiarizou comigo condenou as minhas maneiras bruscas de agir e não gostou de certas entidades que se manifestavam por mim. “Neiva, dizia ele, vamos afastar essas entidades, é para o seu próprio bem, vamos fazer uma reparação para você não ficar louca e ir parar num hospício”. Entre as “entidades” que ele pretendia afastar estava o Cacique Guerreiro Tupinambás. Fiquei muito triste quando soube que esse espírito iria subir e lembrei logo de falar com Mãe Yara. Entre as providências que Mãe Neném havia tomado para o meu desenvolvimento, estava a reserva de um canto da casa para os trabalhos espirituais. Dirigi-me para esse canto com a intenção de ouvir Mãe Yara e lá estavam Mãe Neném e o Cisenando. Tomei o maior susto pois percebi que não contavam com minha presença, e o pior é que o Cisenando estava incorporado e, para meu maior espanto, com Mãe Yara! E pela boca desse médium, ela dizia: “Os espíritos de pouco desenvolvimento espiritual, que entram neste mundo, permanecem nas proximidades da terra, na atmosfera densa, na escuridão. Eles são chamados de espíritos sofredores e sua maior função é atrapalhar o trabalho missionário dos trabalhadores da última hora. Neném ensine Neiva a assimilar as suas visões. Faça com que ela retorne a sua segurança, para a grande obra que vocês duas terão que levantar.
A mente é o reflexo da alma, que é o nosso verdadeiro “eu”. Fez um silencio e continuou: Neném, esses espíritos são de umbanda, tenha todo cuidado. Se for possível volte para Goiânia. Saia depressa sem ser vista. Custei a acreditar no que acabara de ouvir. Meu Deus!, como podia ser, esse espírito que falava tão bem, que já ouvi tantas vezes como Dona Yara ou Mãe Yara e agora se dizia o Amigo de Sempre e falava tão mal, tão negativo, e ainda por cima criticando o Cacique Guerreiro Tupinambás que eu já estava gostando tanto. Na minha insegurança e falta de conhecimento doutrinário voltei a estaca zero. Minha revolta já não tinha limites, me virei contra todo mundo e não sabia para que lado me voltar. Comecei a incorporar sofredores e o pior, você sabe não é Nestor, e o pior era minha inconsciência. “Sim, Tia, sei que a senhora é totalmente inconsciente e que tem até um pedido seu feito ao Pai para que nunca saiba o que saiu pela sua boca. Mas, me diga, além da senhora existem outros médiuns inconscientes?” Nestor, nesse ponto o Tumuchy é intransigente e afirma peremptoriamente que não existe inconsciência mediúnica além da minha. Eu não discordo dele mas não vou tão longe. Acredito que possa haver exceções, pois no mundo de relações entre o céu e a terra tudo é possível. Agora, realmente eu concordo com ele quando diz que o problema é biológico e não moral. De fato, o próprio mecanismo da responsabilidade humana, o ser humano considerado individualmente, não condiz com a inconsciência mediúnica. Em nosso quotidiano nós temos comprovado isso quando vemos até obsediados em fase de convulsões se desviarem de obstáculos, não se machucarem etc.
Mas então Tia, desculpe desviá-la de sua estória que está muito bonita, mas então como ficamos nisso, qual a nossa atitude diante dos médiuns que dão comunicações e se dizem inconscientes?. Nestor, antes de mais nada é preciso respeitar muito o médium de incorporação, o nosso Apará. Mas, realmente o que acontece é que o médium embora registre, ouça o que ele mesmo está falando, muitas vezes ele se alheia, procura não registrar, evita ser indiscreto, não quer se imiscuir na vida alheia, e acaba por realmente não se lembrar do que falou. Esse é o médium ideal, que segue o conselho de Pai Seta Branca de “comunicar sem participar”. Isso acontece principalmente com médiuns totalmente conscientes como, por exemplo, alguns que você conhece como o de Pai Nagô e Pai Zé Pedro. Bem Nestor, vê se não me interrompe. Tenho medo de não ter tempo de contar a minha história e sei que ela vai ajudar muito a vocês quando eu partir. Eu estava naquela fase triste e sem saber o que fazer, quando, um dia Mãe Yara chegou de mansinho e começou a falar no meu ouvido, e, tão logo eu a vi comecei a me desabafar. Como?! Disse eu, a senhora me disse tanta coisa bonita, me prometeu o céu e agora isso, até o Cacique Guerreiro que eu gosto tanto vocês querem afastar. “Calma, calma, Neiva. Não se esqueça que na vida, quando você está esperando o céu, a terra esta esperando por você. Sim filha, antes de você subir ao céu terá que baixar na terra. Não queira que as pessoas pensem como você. Seja imparcial no seu raciocínio e nada aceite sem entender. Não se esqueça que ninguém possui a verdade total”.
Mas, Mãe Yara, diga alguma coisa sobre esse médium, diga alguma coisa sobre o que eu vi. “Neiva, respondeu ela, você não poderá caminhar sozinha. Dê trabalho aos seus braços. Leve o consolo enxugue as lágrimas dos aflitos, ajude a todos aqueles que caminham ao seu lado, não atrapalhe para não ficar sozinha. Fique neutra em relação aquele assunto e volte à normalidade.” As palavras de Mãe Yara me fizeram refletir muito e passei uns poucos dias sem eclosões. Até que. Certo dia, cheguei a casa e encontrei minha filha, Carmem Lúcia, com um dente inflamado e a boca muito inchada. Fiquei aflita e procurei logo tomar alguma providencia, porém naquele momento alguém me puxou para traz e eu incorporei. Atirei-me contra minha filha, descompondo-a e tentando machucá-la e não sei o que mais, pois perdi os sentidos. Quando voltei a mim e soube o que havia acontecido entrei novamente num terrível conflito. Desta vez a coisa tinha sido muito pior, eu havia atingido a minha filha, que era a razão de toda minha luta, minha vida, meus filhos eram como o sangue que corria nas minhas veias. Mas, na minha vergonha e no meu orgulho, eu, já consciente nos meus sentidos, comecei a maltratá-la ainda mais.
-Calma, calma, Neiva. Não se esqueça que na vida, quando você está esperando o céu, a terra está esperando por você.
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