segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Formação da UESB 03.11.1959


FORMAÇÃO DA UESB 03.11.1959

Recebemos, eu e meu companheiro Getúlio, ordem espiritual para virmos aqui morar e junto a nós veio um bom servidor de Deus - António, o Carpinteiro, como o chamavam os espíritos.
Meu companheiro, Getúlio da Gama Wolney, e António começaram a trabalhar desesperadamente nas construções de prédios de madeira para morarmos, enquanto eu, Gilberto, Raul, Carmem Lúcia e Vera Lúcia, saíamos em busca do ganho material: com um pequeno veículo vendíamos, em Brasília, roupas feitas e bijuterias, e só mesmo com a protecção de Deus fazíamos boas vendas e todos os dias, ao finar o dia, eu e meus filhos nos reuníamos e repartíamos o dinheiro. Metade era para comprar géneros alimentícios, e com a outra metade comprávamos gasolina e tecidos, para que eu e Wilma - a esposa do António Carpinteiro - os transformasse em saias de senhoras, enfim, roupas feitas. Trabalhávamos à noite e seguíamos no outro dia, depois de um almoço cedo. Como todos sabem, o pouco com Deus é muito!
Em poucas horas, coisa mesmo de admirar, lá vínhamos eu e meus filhos, no mesmo regime do dia. E assim passaram os dias, os meses. A caridade já me tomava parte do ganho material.
E os visitantes! Já podia contar 20 ou 30 pessoas nos domingos, para almoços e jantares que eu me via obrigada a servir, pois os mesmos se acomodavam em minha casa.
Meus Deus - pensei muito -, será possível que só escolhestes avarentos e acusadores? Que Deus me perdoe por meus instantes de dor, quando me faltava a compreensão ante aqueles exploradores! Comecei a sentir desprezo pela vida material. Eles estragavam sempre os meus planos. Quantas vezes eles chegavam e, na minha própria casa, ali comodamente, começavam a discutir, recriminando tudo o que, com sacrifício, fazíamos eu e meu companheiro.
Nada dizíamos. Era mesmo horrível. Eu olhava ao redor e via, na verdade, material para construirmos. Porém, via também que os trabalhadores precisavam comer. Alguém teria que sustentá-los.
Fui então vendo todo o sofrimento dos meus filhos e do meu companheiro Getúlio. Já sem entusiasmo, continuava eu. A caridade se alastrava, com bela emanação, aos que não a conheciam. A luz da Verdade começava a reluzir nas iniciais que comandava aquela terra sagrada - UESB!
Enquanto lutávamos para o nosso infeliz sustento e grandeza da obra, outros se reuniam até mesmo na minha casa, e ali ficavam a ofender nossa Irmã Neném (Directora Espiritual), que também, àquela altura, tinha vindo residir aqui.
Eram horríveis os nossos primitivos cobradores! Todos se revoltavam... Todos começavam a vibrar a inquietude da revolta íntima. Muitas vezes desencadeavam-se discussões e, muitas vezes conheci o ódio nos corações de alguns. Porém, com toda aquela incompreensão quem mais sofria era eu! Tudo desencadeava em mim, na verdade, além de todas as torturas que pensam sentir os pobres sem compreensão que desejam servir a Deus.
Sentia eu também pela rebeldia de não gostar de morar no mato, a falta de conforto material, a mudança de profissão, ver arrancados dos estudos os meus filhos. Tudo era tortura para mim e meu companheiro. E pelos mesmos trilhos passava a Irmã Neném com os seus filhos.
António Carpinteiro e nós todos víamos chegar, batendo em nossas portas, nossos velhos credores antepassados, nos cobrando centil por centil. E assim pagávamos, sem as forças necessárias do bom trabalhador em Cristo.
Os tempos passavam e eu, com o mesmo ideal de vencer, continuava também no mesmo comércio, porém em dias alternados, pois a caridade não me dava mais tempo. Chegavam aqui pessoas de todos os lugares, com enfermidades para serem curadas. E Deus me dava forças nesta Terra, fazendo assim as mais perfeitas curas.
Devido a essa enchente de pessoas, marquei uma taxa a ser paga pela pessoa que tomasse refeições no bendito abrigo que chamávamos de “hotel”. Esta taxa era de 40 cruzeiros por dia. Na maioria, eram indigentes, e eu os sustentava, sem qualquer ajuda que não fosse lançada em meu rosto ou alegada por toda parte. É muito fácil oferecer alguns quilos em géneros alimentícios. Porém, oferecer o próprio sustento dos filhos, tirando-lhes a metade do que lhes é justo, e, em amor do Cristo, oferecer a quem pensamos ser um estranho, não é fácil, meus irmãos!... E eu o fiz!
Carmem Lúcia, minha filha de 15 anos; Gertrudes, minha filha adoptiva; Marly, filha de nossa querida Directora Irmã Neném, uma linda jovem bacharela, a todas eu incentivava ao trabalho na cozinha para os doentes. Muitas vezes sentia medo que elas se envaidecessem com os elogios dos visitantes.
Certo dia, após uma de minhas incorporações, recebi da Directora uma ordem que teria sido dada pelo espírito secretário do nosso Pai Espiritual Seta Branca, espírito este a razão porque ali vivíamos assim, e que teria dito que eu e meu irmão Jair teríamos que entregar nossos veículos em troca de um possante motor gerador de força eléctrica.
Não titubeamos e, assim, eu e meu bom irmão, que foi para mim uma força ajudadora, entregamos os nossos tão úteis carros. Começou, então, a piorar a minha situação material.
Senti que devia preparar-me para receber as avalanches...
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