quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Desfalque

Noite de intensa atividade curativa no Templo do Amanhecer.
Uma pequena multidão se comprime na área, grande, porém insuficiente para tantas pessoas simultaneamente. Médiuns e clientes, pobres e ricos, homens e mulheres, crianças e adultos, cada qual com seu problema e sua angústia!
Ora sentada, ora cuidando de um e de outro, a Clarividente não pára um minuto, seus dois sentidos alertas, no mundo físico e no mundo espiritual.
Três homens se aproximam dela. Pelas roupas, se percebe serem pessoas de certo trato. Nota-se o constrangimento em disputarem a atenção da preciosa médium, com os clientes mais familiarizados com o ambiente.
Por fim, conseguem seu intento, e sentam-se com ela na pequena mesa de atendimento.
Os olhos negros e profundos fitam, corteses, os três homens, enquanto eles se entreolham, embaraçados. Dois são de meia idade e outro aparenta ter uns cinqüenta anos. A tensão entre eles é visível. O mais velho toma a palavra:
- Dona Neiva, – diz ele – viemos aqui lhe fazer uma consulta.
Temos uma firma de assistência, e estes dois trabalham comigo.
Este é Jairo, meu contador, e o João a senhora já deve conhecer, pois tem freqüentado este Templo. João é meu administrador, e foi quem me aconselhou a procurar a senhora. O problema é o seguinte: nossa firma vai mal, estamos passando por muitas dificuldades e, por último, para piorar a situação, descobrimos um desfalque de quase cem milhões de cruzeiros!
Pois bem, Dona Neiva, a direção da firma está entre nós três e o fato é inexplicável.
O que quer que seja, só pode ter sido feito por um de nós, pois os outros empregados têm pouco acesso a quantias tão vultosas.
Somos amigos há muitos anos, e entre nós há muita confiança. Não quero que uma falsa interpretação venha a manchar essa confiança, mas a verdade é que a diferença do dinheiro existe e, se não localizarmos onde está o engano, correremos o perigo de uma falência. Por isso decidimos vir juntos consultá-la.
A senhora é quem vai nos dizer o que está acontecendo. Se um de nós está
sendo desonesto, a senhora vai nos dizer quem é.
Do meu setor de trabalho eu vira os três homens se aproximando de Neiva, e tivera minha atenção despertada por eles, por conhecer um deles, que freqüentava o Templo.
Naquele dia, o trabalho terminou um pouco mais cedo que de costume e, no caminho de casa, a Clarividente me descreveu a cena acima. Mais tarde,
ela me contou o resto da consulta:
Comecei a grifar seus nomes: Júlio, o engenheiro, sócio principal da firma, 48 anos; Jairo, o contador, 27 anos; e João, o administrador, 31 anos.
Jairo, o contador, olhava-me intensamente, e tinha um ar de incredulidade, como se me desafiasse a dizer a verdade. Os outros estavam visivelmente constrangidos.
De pronto afastei João de qualquer suspeita, pois conhecia eu quadro de uma consulta que me fizera dias antes. Como um raio, a culpa do contador se fez presente na minha clarividência, e sua atitude confirmava isso.
A fim de ganhar tempo e ouvir Mãe Etelvina, a profetiza que me assiste nas consultas, comecei a grifar lentamente cada um dos nomes, como é meu hábito.
Ali estava eu diante de um fato consumado, de um ladrão e suas vítimas! Meu primeiro impulso foi o de dizer claramente o que estava acontecendo. Bastava responder à pergunta do engenheiro ou à insolência do ladrão, e pronto... Por fim, Mãe Etelvina veio tirar-me da situação incômoda, pois já começava a ter raiva do contador desonesto.
- Minha filha, – disse ela – diga-lhes que você prefere dar as respostas depois de ver o quadro de cada um, separadamente, de consultar um de cada vez. Diga-lhes que você não tem capacidade de adivinhar quem roubou, mas que você pode ajudá-los olhando o quadro de cada um deles.
Um pouco decepcionados, eles concordaram, e pedi ao contador que fosse o primeiro. Os outros se levantaram e foram se sentar no banco. Vi-me, então, frente a frente com o culpado. No mesmo instante, Mãe Etelvina começou a desenrolar o quadro pretérito dos três.
Numa pequena província, de uma era remota, o atual engenheiro era um industrial próspero e pai de três filhas. O atual contador, o homem que esperava, impaciente, o meu pronunciamento, era um funcionário burocrático do industrial, e desposara a filha mais velha dele.
A cena se desenrolava rapidamente diante de meus olhos.
Outro quadro, e vejo o genro e empregado tornar-se amante da filha caçula. Outra cena, e o vejo esbanjando o dinheiro da mulher no jogo e, por fim, o desencarne repentino dele numa mesa de jogo.
Depois dessa triste cena, vi o industrial, homem bom e paciente, recuperando as duas filhas com o auxílio de um amigo de ambos, o atual João. Por fim, os tempos terminaram, e vejo os três homens se encontrando no plano astral.
A reação do industrial foi terrível, no seu encontro com o ex-genro terreno, mas este era um espírito estacionado e sua reação foi pouco diferente da sua atitude quando na Terra.
O amigo comum, como sempre, procurava, junto aos Mentores, uma forma de conciliar aqueles destinos tão antagônicos.
Os Mentores resolveram, então, recartilhar o programa do genro desonesto, e todos se prepararam para nova encarnação.
Aqui chegados, todos se encontraram na presente situação. Para completar o quadro, o atual contador tornara-se amante da irmã do engenheiro, que, na encarnação anterior, fora sua filha caçula e amante do cunhado.
Como um raio, passou pela minha cabeça a culpa do contador, e que bastava uma palavra minha para denunciá-lo.
Procurei entender a razão de tudo aquilo. Mãe Etelvina veio em meu socorro.
Pelo recartilhamento, o genro desonesto pedira a Deus para voltar junto ao industrial e sua filha, para reparar seu erro. Para isso, escolhera a prova terrível de ser ladrão e condenado. Essa era a razão porque me desafiava. Inconscientemente, queria ser denunciado, acusado e condenado! Ali estava eu, meu Deus, como uma espada da Justiça!
O quadro era claro e insofismável. Para que aquele espírito considerasse o seu erro reparado, era preciso ser descoberto e condenado pelo engenheiro e pelo desprezo da sua atual amante, com o sofrimento que isso iria trazer a ela. Meu desejo era o de poder sumir dali e não ser obrigada a dizer coisa alguma, como tantas vezes acontece nessas consultas.
Olhei para o homem à minha frente, e disse:
- O senhor sabe que eu sei, não é verdade?
Ele empalideceu e baixou a cabeça; nem sequer tentou negar.
- Pois bem, – continuei – o senhor sabe, também, que sou
obrigada a denunciá-lo aos seus companheiros. Caso contrário, passarei a ser sua cúmplice. O senhor foi quem deu o desfalque, não foi?
- Sim, – disse ele – não sei onde estava com a cabeça quando fiz isso!...
Meu coração doía, mas o olhar de Mãe Etelvina me obrigava a manter a atitude firme.
- O senhor ainda está com esse dinheiro, não está?
- Sim, gastei apenas sete mil cruzeiros.
- Pois bem, vou lhe fazer uma proposta: o senhor devolve esse dinheiro até amanhã, e eu farei tudo para ajudá-lo.
- A senhora fará isso por mim? – perguntou, e seus olhos se encheram de lágrimas.
- Sim, pode deixar por minha conta. Mande entrar o outro!
O engenheiro Júlio olhou-me, apreensivo. Percebi, no seu pensamento, que considerava o contador culpado, e tinha quase certeza de que eu iria dizer-lhe a terrível verdade.
Olhei para Mãe Etelvina, e seus olhos me fitaram firmes.
- Então, Dona Neiva, já descobriu o autor do roubo? Não, – disse eu – não vejo roubo na sua firma. O que vejo é um enorme engano bancário, um assunto complicado de cheques e um erro na escrituração. Só isso que vejo! Se o senhor confiar em mim, esse dinheiro irá aparecer e o senhor irá sossegar. Prometo, ainda, fazer um trabalho para sua firma, e o senhor irá pagar as dívidas e equilibrar sua situação.Seu contador é um homem bom e é seu amigo. Quanto ao João, nem se discute; conheço o quadro dele e é muito bom. Vá para sua casa tranqüilo, que, em dois dias, tudo estará solucionado. Deixe tudo por minha conta.
Em seguida, chamei o administrador e lhe disse mais ou menos a mesma coisa.
Vida espiritual intensa. Nessa noite levantei uma prece silenciosa em prol desses espíritos em conflito, e pedi a Deus que sempre iluminasse a Clarividente em sua missão espinhosa.
Dias depois, vi de novo os três homens no Templo, conversando animadamente com Neiva.
Ela fez um aceno, e me aproximei do grupo.
- Mário, quero que você conheça esses meus amigos. Sugiro que você bata um papinho com o Jairo, aqui, e lhe explique um pouco da nossa Doutrina. Ele está propenso a trabalhar espiritualmente.
Como de hábito, expus da melhor maneira possível o que significava “trabalhar espiritualmente”, e meu atual amigo Jairo hoje é um dos companheiros de luta.
Logo que eles saíram, procurei uma brecha no trabalho e me aproximei de Neiva.
- Como é que foi o resultado da coisa? – perguntei.
- O melhor possível. O contador fez uma complicada manobra bancária e o dinheiro apareceu. Até os sete mil cruzeiros ele arranjou emprestado, e fez a reposição. A firma pagou todos os seus compromissos, e os negócios melhoraram.
Ficou tudo azul! E você não sabe da melhor. O contador arrependeu-se tanto do mal que estava causando, que resolveu se casar com a irmã do engenheiro... Está bom?

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