terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A Infância de Tia Neiva

 

 

A INFÂNCIA DE TIA NEIVA

(Relato de Tia Neiva ao Adjunto Ypuena Mestre Lacerda, no ano de 1979)

"Meus filhos jaguares: Voltemos atrás, antes de terminarmos o esboço desta história. Sei que não há acaso; todas as coincidências são significativas a nossa época. Vivemos simultaneamente a era do espaço da psicologia das profundezas e dos horóscopos; vivemos uma época de transmutação em que as barreiras são derrubadas, e os seus reinos, que até então eram reservados e cultivados, são violados por qualquer sinal vindo do extra-senhorial, desde que seja para o enriquecimento dos seus conhecimentos. Veremos o que podemos tirar de proveito desta minha vida de infância. Salve Deus.
Sei que fui nascida em Sergipe numa cidade sertaneja chamada Propriá. Assim começou a minha família. João de Medeiros Chaves e Pedro de Medeiros Chaves, dois irmãos holandeses muito unidos, que foram deportados de sua pátria por questões políticas. Já em alto mar, os dois ficaram sabendo qual seria seu destino. Destemidos, combinaram e então largaram-se no mar. E ainda no convés, fizeram o compromisso de que quem cansasse primeiro ficaria, e o outro não olharia para trás. Pedro não resistiu e afundou e João seguiu o seu destino. Chegando nas costas do Estado de Sergipe, onde formou uma enorme família. João de Medeiros Chaves se instalou na Fazenda Cabo Verde, localizada a alguns quilômetros de Propriá, e dominou toda aquela região e, sendo valente e honesto, logo tornaram-no um coronel. Naquela época, os escravos lhe tinham como verdadeiro amigo, sendo considerado o juiz dos desamparados. João de Medeiros Chaves teve muitos filhos, dos quais Pedro, meu avô. Justamente Pedro, o nome do que havia morrido no mar. Com a morte, seus filhos continuaram a obra. Todos os membros da família se orgulhavam do seu valente tronco e faziam questão de que todos nós soubéssemos desde o princípio.
Mais tarde, meu pai casou-se com a filha de Luiz Seixas (vulgo Lulu) e foi uma luta para que meu nome deixasse de ter “Medeiros”. Passei a me chamar Neiva de Medeiros Chaves, em vez de Neiva de Seixas Chaves. Meu pai, Antônio de Medeiros Chaves, e José de Medeiros Chaves, resolveram partir. José de Medeiros Chaves (vulgo Juca) viajou para Belo Horizonte, onde veio a ser presidente da Assembléia Legislativa e meu pai ficou no Sul da Bahia, deixando Pedro de Medeiros Chaves, Manoel de Medeiros e Gracinha, já casada com Tio Quincas. O seu primo e mais três, que, desgostosas, foram para o Convento e se enclausuraram como irmãs Carmelitas do Verbo Divino: Zozó, Zezé e Betina.
Enquanto o meu pai vivia com dificuldades, pois deixara toda aquela fortuna, os outros fizeram inventário sozinhos. Ainda em vida papai deu a sua procuração para o meu tio Pedro, que cuidava da minha avó. Por volta de 1930, meu pai foi ser administrador de três fazendas de propriedade do Senhor Amorim. Lembro-me que chegamos na famosa Fazenda Pinheiro, localizada nas proximidades de uma cidadezinha do Sul da Bahia, conhecida por Água Preta. O casarão da fazenda era uma verdadeira mansão. Lembro-me que fomos num trem elétrico e saltamos bem perto. Crimes, verdadeiro cangaço. Meu Deus, dentre eles um fato importante, quando eu ainda estava nesta fazenda. José Pinto e o Senhor Vicente, estes eram os meus amigos. Vicente era o barbeiro da fazenda e Zé Pinto uma espécie de capataz. Certo dia, Zé Pinto foi festejar São João na Fazenda Grajaú, levando nas costas um caixão de bombas, rojões e pólvora, coisas próprias dos festejos de São João. Vi quando meu pai lhe advertiu: “ Se você cair, tudo isso irá explodir”. Todavia, Zé Pinto se foi e não sei quanto tempo depois ouviu-se um estampido. Vi Zé Pinto despedaçado no chão, todo mutilado: Isso deveria ser a uma distância de cinco quilômetros. Saí gritando. Meu pai ouvira o estrondo e, desesperado, saiu correndo em busca de notícia.
Ninguém se preocupou com isso, porém, depois, quando ele foi socorrido, conheceram quem deu a notícia. Porém, papai me perguntou. Eu disse o que tinha visto e ele riu muito e ficou por isso mesmo. Depois, Zé Pinto foi num trem elétrico e não sei quanto tempo depois retornou todo mutilado e com seu espírito forte e alegre, porém ficou muito doente, a ponto de chegar na hora da morte.
Faltava aproximadamente meia hora para a morte dele, quando cheguei perto e disse: “ Zé, seu Leonardo está dizendo que se você morrer com a perna quebrada vão serrar a sua perna e puxar com sua mão de anjinho. Eu ouvi ele dizer: ele morreu”. Enquanto isso, o Sr Vicente barbeiro foi convidado para fazer um saque em Água Preta, o distrito responsável por toda a região (de um caso a outro, porque não tenho noção do tempo), mas o fato é que o Sr Vicente barbeiro me deu uma caixinha com tesoura e tudo, dizendo: “Vou te dar tudo porque não vou mais trabalhar. Vou ficar rico, só não te dou a navalha porque é perigosa”. Foi horrível, uma madrugada em que todo mundo acordou.
Cesário Falcão e João Gomes, os dois chefes do Cangaço, passaram com seus “cabras” na estrada, que era em frente à Casa Grande, 40 cabras, quando eu ouvi papai dizendo: “Loucos, vocês fazem parte deste cangaço!... Sumam daqui pelo amor de Deus. Seu Chaves, pelo amor de Neivinha”. Papai preparou uma mochila de comida e disse novamente para eles sumirem dali e eles desapareceram.
No entanto, do meu quarto eu via e ouvia tudo, os dias se passavam e eu estava sozinha debaixo da castanheira, como era o meu costume, quando papai chegou e disse: “Neivinha, vá para dentro”. Todavia, quando olhei, os dois homens estavam atracados com os seus facões. Comecei a gritar, porém, ninguém me ouvia. Meu pai apartou a briga e quando olhei, um já terminava, quando dizia para papai que o Vicente barbeiro havia voltado. Ele virou-se para a mamãe e disse: “Oh Sinhazinha, o Vicente barbeiro foi encontrado com um balaço. Pensamos que ele havia sido salvo da volante. Foi melhor assim do que passar aquela humilhação da maneira que vimos”. Sim, eu o vi amarrado de costas no rabo dos cavalos.
Foi uma cena que não esquecerei jamais, eu tinha apenas cinco anos aproximadamente. Meu filho Lacerda, se tiveres paciência comigo, todas as noites nós vamos escrever mais um pouquinho, viu meu filho? Agora vou atender a umas pessoas no Templo, que estão me esperando. Mãe Tildes está aqui me dizendo que aquelas pessoas estão sofrendo muito e que vêm de longe...! Salve Deus..."

Tia Neiva
Vale do Amanhecer, 1979
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