sábado, 21 de janeiro de 2012

Stonehehge (continuação)



Os Druidas são os servidores da Deusa, a Grande Mãe, e detentores da sabedoria sagrada dos celtas. Eles eram os cientistas e os mestres espirituais desse povo. Eles eram homens magos que dedicavam suas vidas a louvar a fecundidade da Terra e a promover a evolução humana e cósmica pelo diálogo da alma com o planeta e o cosmos. Esses sacerdotes viviam um polisteísmo singular e cheio de paradoxos.

O deus supremo dos celtas era o Dis Pater, que não podia ser conhecido nem sequer invocado. A mitologia celta tem nos seus demais deuses manifestações arquetípicas desses deus inominável. Cernunus, filho e consorte da Deusa, a insemina e é parido por ela. Lug, o herói mestre de todas as artes, Esus, Taran, Teutatés, Belinus e outros tantos, são aspectos desse Dis Pater e instrumentos de sua atuação efetiva na vida. A contraparte feminina do Dis Pater é tão inominável e abstrata quanto ele, mas no plano material é chamada Dé-Meter (Terra Mãe).

Dé-Meter é a raiz de Demeter, deusa da Grécia; também é o princípio feminino Morrigan, a Morgana dos celtas; Don para os russos;e Dana, a Senhora Rainha da Estrela Sírius, outro nome de Ísis para os Tuatha, ou Ana. Os irlandeses chamavam-na Danu. Dan é uma palavra céltica, e está presente na composição de muitos nomes arianos, escandinavos e eslavos. Por exemplo: Danmark (Dinamarca), Dan ou Wodan (Odin, deus da mitologia escandinava), e também dos germanos e dos citas. A tribo de Dan, à qual pertencia Sansão, para alguns era formada por uma aliança celto-hebraica.

Os druidas eram sacerdotes iniciados na sabedoria da natureza e afirmavam – assim como faziam os sacerdotes maias e incas – que eram descendentes do deus dos mares, de quem tinham aprendido a ciência e a sabedoria. Eles acreditavam na eternidade da energia da matéria, na eternidade do espírito e na metempsicose.

Para os celtas, a manifestação da vontade do inominável e desconhecido cria a vida e se experssa em três círculos: abred, o círculo interior, onde pulsa o gérmen de todas as coisas;o gwenved (círculo do centro da beatitude); e o Keugant, o círculo exterior, onde somente Deus se encontra. Acreditavam em cinco elementos de sustentação da vida : Kalas (a Terra, a emanação de Dé-Mater); gwyar (a hmildade); fun (o ar); uvel (fogo, luz, calor); nwyvre (emanação do espírito de Dis Pater). Da união da emanação do espírito de Dis Pater e Dé-Mater com os demais elementos surge a vida.

Os druidas não tinham templos e oficiavam no altar da natureza, em especial nos bosques e junto a uma árvore consagrada : o carvalho. Na lunação adequada, utilizavam uma pequena foice de ouro para extrair o visco do carvalho, um musgo com poderes curativos do corpo físico e do corpo astral, dotado de elementos transmutadores de desequilíbrios e fortalecedores do sistema imunológico. Esse era um ritual permitido somente aos druidas. Do visco (visgo) era feita uma poção que, depois de pronta, era servida aos membros da comunidade.

Eles conheciam poções para soluções de males físicos e espirituais, feitas com misturas de raízes, ervas resinas e minerais. Os druidas eram grandes alquimistas e conhecedores da linguagem das estrelas, sendo Stonehenge para eles um observatório solar e um ponto de convergência das energias cósmicas e um catalisador de energias curativas.

A Deusa era adorada em todas as formas da natureza. Os druidas também eram profundos conhecedores das energias telúricas. As ondas de energia que circulam no interior da Mãe-Terra e pulsam nas entranhas do planeta eram chamadas as “veias do dragão”, e a bruma, a sua respiração. Eles eram estudiosos do céu e harmonizavam os sinais terrestres e celestes para definir caminhos e ações. Tinham uma relação orgânica com o universo e com a Mãe-Terra. Eles se guiavam pelo Sol e pela Lua na contagem do tempo orientador para o plantio e colheita, e para a elaboração do calendário.

Recentemente, astrofísicos e estudiosos da nossa estrela-mãe, o Sol, estudando Stonehenge, obtiveram novas informações sobre as pulsações e explosões solares, desvendando no monumento alguns conhecimentos adquiridos pelos antigos celtas.

Os druidas da Irlanda eram considerados da mão esquerda, ou seja, feiticeiros que utilizavam a manipulação das energias naturais em benefício próprio e praticavam sacrifícios humanos. Os druidas da Bretanha, Escócia e da Inglaterra são considerados os verdadeiros herdeiros da sabedoria celta e servidores de Dis Pater e Dé-Mater.

O declínio dos celtas e druidas tem início com a invasão romana. Os romanos atacaram o País de Gales no ano 61 d.C., e muitos dos nobres galeses eram anti-romanos e resistiram bravamente; com a ajuda do povo e dos druidas, lutaram contra a invasão, mas sofreram terrível derrota.

Com a cristianização, o druidismo que restou foi perseguido, e à medida que o Cristianismo se firmava, foram desaparecendo os rituais e festivais sagrados. Os druidas forma considerados um mal a ser extirpado e suas práticas religiosas vistas como nefastas e demoníacas.

No século 18, aconteceu o renascimento dos druidas e da cultura dos celtas. Foi quando estudiosos da Antiguidade e nacionalistas galeses trouxeram de volta suas origens célticas e o interesse pela sabedoria dos druidas, visando restaurar a memória cultural e a identidade nacional.

Os druidas, as sacerdotisas, os bardos, os poetas e os harpistas celtas permeiam as lendas inglesas e encantam milhares de pessoas pelomundo afora. As lendas narram os amores, desafios e feitos dos cavaleiros. O seu principal símbolo é a espada sagrada chamada Excalibur, a espada da reconstrução do Bem.

Segundo as narrativas, o jovem Arthur, nascido pela vontade da Deusa para liderar, seria o rei que traria paz e prosperidade ao povo. O menino foi concedido por Igraine, sacerdotisa da Deusa de Avalon, e criado por Merlin, o mago. Arthur recebe de Merlin ensinamentos morais e marciais, e sua pureza de coração e intenção justa o autorizam a ser o único capaz de retirar da pedra onde está incrustada a espada mágica, presente da Senhora do Lago, a grande sacerdotisa de Deusa.

Empunhando Excalibur, Arthur inicia um novo ciclo de evolução sobra a Terra, e não somente sobre Avalon. Cria uma nova ordem e constrói Camelot, o castelo onde os famosos doze cavaleiros se reuniam em torno da Távola Redonda para comungar de valores, façanhas e sonhos. Lenda e realidade se misturam e o poder político e o poder espiritual são parceiros nas narrativas arturianas. Recentemente, historiadores localizaram o que consideram ser o túmulo do mítico rei Arthur.

Atualmente, muitos são os adeptos do druidismo espalhados pelos diversos países, e os modernos druidas reivindicam o acesso a Stronehenge para se reunir por ocasião dos solstícios de inverno e de verão, e reviver as práticas das quais se consideram legítimos herdeiros.

A estação de semeadura que precede o inverno, bem como o início da primavera e, finalmente, todos os solstícios, erma marcados por comemorações. O nascer do dia, a chegada da noite, as lunações e a chuva fecundante, eram recebidos como dádivas pelos celtas-druidas, e os atuais seguidores gostariam de poder se reabastecer na memória sagrada que vibra e emana de cada menir no círculo de Stonehenge.

As autoridades britânicas impedem a entrada no círculo sagrado argumentando que a manutenção da integridade do monumento estaria ameaçada. Que quiser visitar o círculo sagrado dos celtas, terá de ser contentar com uma observação distante.

Se os celtas são realmente nossos antepassados, unificadores da cultura planetária, é algo a ser comprovado pelos cientistas e historiadores. Mas Stonehenge é, sem dúvida, uma mandala de integração e um monumento da humanidade que nos remete ao limite do que seja finito e cognoscível. Nele, a iminência do sagrado expressa uma realidade transcendente, compartilhada por todas as raças e culturas reunidas em torno do Mistério.

Marilu Martinelli é jornalista, escritora educadora, professora de mitologia, consultora para Formação do Educador em Valores Humanos.n 
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